Como organizar um sentir interior, calmo e de segurança, na nossa vida?
Em conversa, perguntavam-me, em tom preocupado, se as mudanças que aquela pessoa tinha feito na vida, todas elas muito rápidas, seriam corretas. Se, por ter pautado a sua vida assim, deste modo rápido de agir, não lhe teria dado tempo de pensar bem nas decisões tomadas. Anteriormente, já tinha partilhado comigo que, também agora, não se sentia plena, satisfeita com a sua vida, apesar de ter mudado tudo há um ano.
No nosso diálogo, fui-lhe transmitindo que, por vezes, aquilo que nos pareciam ser decisões rápidas e urgentes poderiam ser, eventualmente, resultados de longos processos de questionamento interior, ponderados no silêncio da consciência. E que, por isso, emergiam com a inquietação de um passageiro clandestino, que se revela e aparece à vista de todos e, até, de si próprio, espantando e ficando espantado.
Seriam, assim, como que fins atingidos, metas ou fecho de ciclo, na medida em que, inconscientemente, há um caminho interior a ser trilhado para lá do estado acordado ou do sono.
Os nossos conhecimentos, as aprendizagens, as dúvidas, os avanços e recuos, as ponderações estão constantemente a ser processadas e, por essa forma, a serem postas em prática.
Devolvi-lhe que tinha existido uma prática, sim, que se constituíra, certamente, de forma menos perceptível à consciência, mas que a levara até àqueles momentos, aparentemente rápidos, onde tomava decisões, de fundo, “rapidamente”.
A nossa vida interior, na senda da construção identitária (da nossa identidade genuína, descoberta porque trabalhada por nós em processo analítico) tal como os trajetos escolares, vai-se fazendo degrau a degrau, de ciclo em ciclo. Em cada nível e etapa somos nós em estado de transformação. Sempre nós e sempre novos, acrescentados. Ao longo do caminho vão-se tendo experiências, encontros, vivências que nos formam, que nos dão densidade em relação a quem somos e a quem poderemos imaginar vir a ser.
Poder pensar que é pela experiência pessoal prática da vida que alcançamos, no mar revolto agitado, alguns períodos de acalmia, é podermos aceitar que a inquietação da insegurança nos coloca em movimento positivo de vida e que isso é tão natural como tudo o resto.
Almejar o encontro pleno e permanente com a segurança fixada é perder a vivacidade flamejante da vida. Resistir à natureza instável do Ser Humano é negar que somos seres da Natureza, é lutar ingloriamente, é uma canseira e lapidar a vida pela via do medo. Não compreender e não investir no alinhamento com a nossa natureza é, também, uma grande burrice, pois o potencial que todos nós contemos fica atrofiado e paralisado.
A segurança pode ser vista como a pausa das partituras musicais. Com as notas há música. Sim, é certo que as notas musicais podem ser curtas, longas, tocadas em andamentos mais lentos ou vivace. Cada um compõe várias peças musicais ao longo da sua vida. Cada etapa, cada ciclo tem uma melodia própria. A forma como cada um se organiza tem sempre legitimidade, a sua própria. Não obstante as consequências produzidas, a nossa autoapreciação nunca poderá assentar numa lógica maniqueísta, do isto é: bom ou mau; perfeito ou imperfeito; bonito ou feio; certo ou errado. As nossas decisões, que tendencialmente com a reflexão e práticas de vida vamos afinando, são aquilo que conseguimos fazer com as circunstâncias do momento, os conhecimentos, as capacidades, condição e, sobretudo, o grau de competência no manuseio das emoções.
A razão (racionalidade) e a consciência, ao invés do que se poderá pensar, são as “forças” menores da mente humana. Por isso, são capturadas pelas emoções e pelo mundo profundo do inconsciente, onde se conservam memórias complexas e inexploradas.
Sim, decidimos... Decidimos a vida por aquilo que conseguimos pensar através dos sentimentos e emoções! Decidimos a vida através das crenças enraizadas, dos valores sociais e familiares em nós incutidos, por necessidades e vontades alheias.
Vamos decidindo. Temos camadas e camadas de finas névoas a cobrir o edifício mental. Temos viagens e viagens a realizar para dentro e para fora de nós.
É fundamental caminhar, sempre e sempre, no aprofundamento do conhecimento de si; na auto-observação e na auto-análise. Mas é também fundamental viajar pelo Mundo fora a praticar a vida e, no espanto imenso da autenticidade essencial, reconhecermo-nos na diversidade do nosso potencial para assim nos encantarmos e surpreendermos, continuamente, com alegria e entusiasmo na vida.
Ana Batarda