A criatividade em psicanálise é o pequeno nada que muda tudo: não imitar, não fazer como alguém fez, descobrir o que não está descoberto, ou tão só descobrir o que estava coberto.
Resumo
O processo criativo em psicanálise é trabalhoso, complexo e moroso. No tempo de formação de um psicanalista a qualidade da intervenção clínica e a qualidade da respectiva supervisão constituem factores de particular interesse no desenvolvimento de analistas criativos. Começar por desenvolver um trabalho territorialmente localizado, muito próximo das referências, serve apenas como etapa necessária ao processo de diferenciação do analista em formação que rejeita tanto a hipótese de ser analista-papagaio como analista pseudo-original. Aquele que fica, persevera, luta inevitavelmente pela originalidade, pela transposição do comum, pelo diferente, pela descoberta e pelo desassossego do conhecimento. Continuar, pelo tempo fora, em busca, a investigar sempre, com uma atitude de progresso, torna-se uma das melhores possibilidades de se ser criativo em psicanálise.
Palavras-chave: psicanálise; criatividade; formação; investigar; diferenciação.
LE PETIT RIEN QUI CHANGE TOUT, é o título de um pequeno livro de capa colorida do Lama Tibetano Yéshé Losal Rimpoché que, segundo o que está escrito nessa mesma capa, dá Conselhos sobre uma vida melhor. Confesso que não passei do título, mas para mim, aquele livro é o seu título.
Em psicanálise, a criatividade podia definir-se assim, como o título daquele livro: O pequeno nada que muda tudo. Tal como em todas as áreas do saber e da arte, na psicanálise ser criativo também é coisa muito difícil porque sendo a criatividade a “capacidade de produção do artista, do descobridor e do inventor que se manifesta pela originalidade inventiva” (Dicionário da Língua Portuguesa), ser analista implicará não imitar, não fazer como alguém fez, descobrir o que não está descoberto, ou tão apenas e somente descobrir o que estava coberto.
A Criatividade é uma qualidade Humana (porque os bichos também criam, mas pouco). Implica existência de intencionalidade, persistente e sistematizada mobilização do desejo do sujeito em relação a algo ou a alguém, e um produto final original. A criatividade em psicanálise situar-se-á, então, tanto do lado do analista como do lado do analisando, nos dois é fundamental.
Dando aqui, contudo, mais enfoque à criatividade do analista, por se entender que, na relação terapêutica, é ele o responsável pela reactivação do núcleo criativo da personalidade do paciente, deparamo-nos com uma questão muito sensível e a meu ver interessante de se debater que é a qualidade da intervenção clínica e a qualidade da respectiva supervisão, no tempo de formação de um psicanalista, em nome do respeito pelo sofrimento mental do paciente e sua evolução e o desejo de bem perpetuar o nome da Psicanálise.
Convido-vos a seguirem o raciocínio, deixado lá atrás sobre a criatividade, onde dizia que para o analista tal implicaria fazer diferente, o que concretamente quer dizer em psicanálise: não copiar, com mais ou menos estilo, o trabalho de outro analista (supervisor), não aplicar frases feitas, interpretações clichés, modelos teóricos a martelo e por aí em diante. O ser diferente, no caso dos aprendizes deste métier (onde me incluo e por isso me atrevo a reflectir alto as minhas dores), significa, mais ou menos andar em pezinhos de lã entre o consultório e a supervisão, com o paciente nos braços, desejando não o pôr pior do que está, acertar o mais possível na compreensão/ diagnóstico e acompanhamento do caso e, não se sentir nem demasiadamente frustrado nem estúpido, face às orientações do supervisor. A sensação é assaz incómoda e delicada porque o analista é um profissional que trabalha com o que mais sensível existe no Ser Humano: os seus sentimentos; as suas fragilidades e as suas potencialidades e está sozinho (e ainda bem) com o seu paciente nas sessões. Se então, conforme alguém disse: “É preciso estar a trabalhar para ser surpreendido pela inspiração”, pois não se é criativo do nada, trabalhar com criatividade em psicanálise é ter um golpe de asa do pensamento, uma iluminação – detonado de muito trabalho feito. Os pacientes não são folhas de papel, onde podemos riscar e reescrever se não gostarmos do que dissemos, não são telas que se repintam, nem são tecidos que podem ser melhor talhados ou cosidos. O trabalho é feito directamente no original e produz de imediato um efeito.
Como é que então vamos intervindo sem nos sentirmos totalmente analistas-papagaios (mais ou menos exóticos), nem analistas-pseudo-originais?
Aprendemos, primeiro, a ser Analistas e a fazer Psicanálise a partir de uma origem, de um lugar; de referências teóricas e dos “Mestres”. Depois, há um caminho que se faz, um processo de aprendizagem, de experiências próprias adquiridas através da prática clínica, da análise pessoal, da formação e da supervisão, onde se transportam, mais ou menos vincadamente, as referências. Por fim, confrontamo-nos com resultados e resultantes, ou seja, efeitos criados sobre os pacientes e sobre nós próprios. Estes efeitos parecem-me ser os indicadores mais pertinentes na análise da criatividade do analista, ou seja o observatório onde, frontalmente, encaramos o estado em que cada um está, numa determinada fase do processo terapêutico.
Quer dizer: se, inicialmente, o trabalho que se começa por desenvolver está territorialmente localizado muito próximo das referências, num tempo que podemos chamar de fundador, de “terroir” germinador e fértil, do tipo alotriomórfico, na linha de pensamento do Professor Coimbra de Matos, depois deve vir a originalidade e a diferenciação do analista em formação, a fase idiomórfica. Já não se anda pela mão do supervisor, cresce-se, separa-se, desembaraça-se do aprendido e, aparentemente das memórias, aventura-se em novos territórios, desta feita, o mais criativos que nos for possível.
Pierre-Auguste Renoir, falando sobre a influência no seu trabalho das suas origens, meio, professores e os amigos, disse um dia: “Quando imagino se tivesse nascido num meio intelectual, teria necessitado anos para me livrar dos preconceitos e ver as coisas como elas são e talvez tivesse ficado com as mãos deformadas.”, faz pensar, através da imagem da deformação, o estado caricatural em que se fica quando se repete eternamente alguém que se não é.
Talvez, por o processo criativo em psicanálise ser trabalhoso, complexo e moroso, se torne potencialmente desmobilizante, aos juniores e, se calhar, a alguns seniores. Quem fica, quem persevera, tem de lutar inevitavelmente pela originalidade, pela transposição do comum, interessar-se pelo diferente, pela descoberta, pelo desassossego do conhecimento. Se não o fizer, não presta, na psicanálise é um falso psicanalista, é mais um acomodado na arte, como qualquer outro profissional que está numa qualquer linha de montagem pública ou privada. Continuar, pelo tempo fora, em Busca, a investigar sempre, com uma atitude de progresso, é, no meu entender, uma das melhores possibilidades de se ser criativo em psicanálise. Ser questionador, sem deslumbramentos narcísicos porque, constantemente, também se questiona e deixa-se questionar pelos outros, é uma atitude. Uma atitude de constante busca pela inovação. Mais do que chegar, interessa ir, mais do que ter, interessa saber procurar. Melhor do que ser “curado”, interessa saber não se deixar ficar doente. A criatividade em psicanálise, para mim, está no processo, no processo que se funda com o outro, em nós e naquilo que nos permitiremos fundar depois.
Numa entrevista feita a Lucien Freud (pintor) por Sebastian Smee, onde Freud distinguia o modo de trabalhar de Francis Bacon, amigo e pintor que ele muito admirava, este Freud disse: “Eu apercebi-me que o seu trabalho se reportava imediatamente ao modo como ele sentia a vida. O meu, pelo contrário, parecia-me muito trabalhoso. Isto era porque para mim dava-me um trabalho terrível fazer qualquer coisa – e ainda dá. Francis, por outro lado, tinha ideias que ele deitava abaixo e depois destruía e depois, rapidamente deitava abaixo novamente. Era a sua atitude que eu admirava. O modo como ele era completamente ruthless com o seu próprio trabalho. Afinal de contas quase nenhum artista consegue não “amaciar” a sua obra.”
E se quiséssemos, ainda recordar Renoir, depois de ter concluído o seu último quadro, no dia da sua morte (03.12.1919) quando disse: “Creio que aos poucos percebo algo disto”, confiaríamos mais no inacabado, no prazer de ir descobrindo, na humildade e na verdade daquele que não pára de trabalhar porque se recria constantemente, num trabalho honesto.
No âmago está sempre o Sujeito, é a esse que importa dar existência; tirar do nada; gerar; produzir, alimentar para desenvolver; inventar; fundar. Criar, entendido como força do desejo insatisfeito e representante de um processo de libertação do Eu, sem alienação da realidade, remete-nos para o desenvolvimento do potencial do Ser Humano, essa fonte inesgotável e surpreendente que somos, e para a plasticidade da sua expressão.
Na psicanálise, como diz Coimbra de Matos, “o psicanalista funciona como uma mãe, um aparelho psíquico auxiliar, um sonhador inspirado, uma fonte de afecto, espelho do reconhecimento e apreço, abrigo de segurança, conforto e protecção. É o objecto vincular transformador, criando mantendo e nutrindo as condições propícias – necessárias e suficientes – à retoma ou retomada do desenvolvimento suspenso e/ou desviado que subjaz ou estrutura a patologia. É numa nova relação, ora encetada, desenvolutiva e sanígena, que se produz a energia para a reactivação do núcleo criativo da personalidade, finalidade essencial – primeira e última – do processo psicanalítico.”
CRIAR é um labor amoroso intemporal, onde o criador é sujeito-dador/oblativo; onde o investimento no outro se torna fonte para o amor-próprio – infra-estrutura (tijolinhos invisíveis) da auto-estima e motor do processo transformacional. A refundação do Eu, pela renovação da atribuição identitária patogénica (depreciativa ou fracturante), numa nova imagem de si, propulsora de experiências positivas vão elevar o indivíduo à sua diferenciação e maturidade. Autor e protagonista do seu desejo, o indivíduo ganha liberdade e expressão social, atravessando, seguro, tanto alegrias como tristezas, saindo da cegueira e da submissão. Despido de moralidades exógenas, o indivíduo torna-se ser pensante, descobre-se, pensa-se e recria-se.
Traduzido numa obra de arte ou num semblante sereno, a criação tem uma marca intemporal, exclusiva e singular de quem a imagina e de quem dela se apropria. Como dizia Cruzeiro Seixas “O que é preciso é abrir as janelas que não há…”.
Criação é invenção, obra, um produto do conhecimento, de encontro, de novas ordens e novas relações. E exprimir-se significa, de facto, o alargamento, a expansão, a curiosidade, a investigação, o trabalho, a dedicação, a generosidade, a entrega, o entusiasmo, a genuinidade canalizada para objectivos úteis ao indivíduo e à sociedade. Entendendo-se que indivíduo e sociedade se interligam, potenciam e complementam, e que na ideia de utilidade se enquadra a possibilidade estética, a anti-convencionalidade, a saúde mental, a relação afectiva, a relação sócio-afectiva, o sentir-se bem consigo, com e entre os outros, o tornar simples, boa e verdadeira a vida. Porque, só o sonho não chega, é preciso realizar. Porque o amor não se imagina, nem se diz apenas; faz-se. Já Camões o sabia: “imagine-o quem não puder experimentá-lo” (Canto IX, Lusíadas) – tão-só “quem não puder”; e este fica aquém do paraíso.
A criatividade em psicanálise torna-se, neste sentido, uma busca, uma esperança e uma vinculação estimulante e entusiástica entre os implicados, de um ponto de partida “menos” (caos) para um outro local “mais” (organizado), desconhecido, mas desejado; da concretude para o imaginário; das sensações para o conhecimento; da acção para o simbólico, do aqui para o sonho – demonstrado pela via literária, pictórica, gestual ou do invisível mental – um pequeno nada que muda tudo.
Mas só sonho não chega, é preciso realizar. O amor não se imagina, nem se diz apenas, faz-se. Já Camões o sabia: “imagine-o quem não puder realizá-lo” (Canto IX, Lusíadas) – tão-só “quem não puder”; e este fica aquém do paraíso.
Title: Le Petit rien qui change tout
ABSTRACT
The creative process in psychoanalysis is cumbersome, lengthy and complex. At the time of formation of a psychoanalyst quality of clinical intervention and quality of supervision are factors of particular interest in the development of creative analysts.
Start by developing a work territorially located very close to the references, it serves only as a necessary step in the process of differentiation of the analyst in training who rejects both the possibility of being an analyst parrot as an analyst pseudo-original. One who is, perseveres, inevitably struggle for originality, by transposition of common and different, and the discovery of knowledge by the unrest.
Continue for the time off, searching, investigating ever, with an attitude of progress, it becomes one of the best opportunities to be creative in psychoanalysis.
Keywords: psychoanalysis, creativity, training, research, differentiation.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Camões, Luís Vaz. Os Lusíadas. Lello Editores
Bernard, Bruce & Dawson, D. (2006). Freud at Work. Jonathan Cape, London.
Feist, H. Peter (1990). Pierre-Auguste Renoir 1841-1919 Um Sonho de Harmonia. Benedikt Taschen.
Matos, A. C. (2002). Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica. Lisboa: Climepsi.