Ana Batarda foi uma das psicanalistas que o Prof. António Coimbra de Matos, falecido a 1 de julho, supervisionou ao longo de vários anos. Em nome de toda a “classe”, escreveu este texto que aqui publicamos. Trata-se de um elogio a um homem que “deixou marca”, não só nos pacientes e colegas, como na História da Psicanálise.

As palavras são insuficientes e pequenas para descrever a perda que sentimos com a partida do nosso querido Professor Doutor António Coimbra de Matos, hoje dia 01 de Julho de 2021.

Não se pode homenagear o Professor Coimbra em nome individual, porque ele era de Todos. Por isso, recorro ao contexto do grupo das Supervisões Clínicas, dos sábados, para dar voz a todos aqueles que por ele sentem carinho, admiração, valor da sua palavra transformadora e do seu legado psicanalítico inovador.

O grupo das Supervisões Clínicas dos sábados, ficou sem o seu Mestre. Muitos, tantos outros, nos mais variados contextos e círculos, também o ficaram. Todos estamos tristes e sabemos que a sua perda é irreparável. Não há na praça clínica quem o iguale. O Professor Doutor António Coimbra de Matos e o Professor Doutor Carlos Amaral Dias (falecido em dezembro de 2019), são os dois representantes e referências máximas da Psicanálise e da Saúde Mental em Portugal, detentores de reconhecimento nacional e internacional.

O nosso querido Professor Coimbra, como afetivamente o tratávamos, iria fazer 92 anos, a 20 de dezembro. Resistente a vários contratempos de saúde ao longo dos últimos anos, o Professor queria chegar aos 100 anos, a sua mãe tinha chegado aos 101 com saúde, e para ele os 100 era a sua dose, dizia.

Fica-nos a sua imortalidade simbólica. Para o Professor Coimbra, o Homem liberta-se da angústia da finitude através da obra e da cultura humana. E Criar foi o que fez. Deixou obra vasta, material e imaterial. Na vida de tantos e tantos, o Professor Coimbra perdurará: através dos livros que escreveu; das aulas, conferências, supervisões didáticas individuais e de grupo que deu; das consultas aos pacientes que ajudou; dos inúmeros prefácios que escreveu; das teses académicas, livros e trabalhos que reviu; da disponibilidade permanente em ensinar; da singular atitude em investigação psicanalítica - pois era crítico feroz dos acumuladores eruditos de conhecimentos ou dos papagaios repetidores de técnicas - fica-nos a memória de um Homem, um Professor, um Psicanalista com humor e gosto em brincar: “Aprende-se a brincar, investiga-se a fazer”, escreveu.

Fomos privilegiados, décadas a fio, com as suas Supervisões aos sábados, com a sua dedicação e desejo de formar profissionais com identidade própria, capazes de questionar, inovar e investigar sempre em prol da melhoria dos pacientes. “Transformação e progresso”. “O psicanalista desencrava o desenvolvimento suspenso”, eram alguns dos seus lemas, das suas palavras, das suas convicções e ações. As Supervisões dos sábados, foram laboratórios transformadores das nossas mentes, enquanto Terapeutas. Aquele dia, em que a sua dedicadíssima secretária Luísa Mafra (Licenciada em Psicologia Clínica) nos comunicava a data da supervisão do Professor, tornava-se um sábado “sagrado” nas nossas agendas. E lá íamos, literalmente em Festa. Estar com ele, no grupo da Supervisão dos sábados, era uma festa. Festa pelo prazer da relação, de com ele estar, de privar e aprender. Entrávamos para uma Festa e saíamos com o sentimento de nos ter sido servido um Banquete! Um Banquete de conhecimentos, de ideias fervilhantes, de estímulo mental para melhor cuidarmos dos nossos pacientes, uma vez regressadas aos nossos consultórios.

Todos sabíamos que sairíamos, dessas magníficas tardes de sábado, sempre enriquecidos com mais Saber e vontade de Saber mais.

O Professor surpreendia-nos em todas as Supervisões Clínicas. A sua análise inteligente, arguta e sábia do “caso”, que lhe levávamos para discutir, abria-nos novos caminhos no trabalho com os pacientes.

Todos aprendíamos com os casos uns dos outros, em abono da verdade deveria dizer “umas com as outras”, porque no grupo só havia um colega (pertencente ao núcleo duro dos que nunca faltavam) que, por não exercer clínica, nos deixava, a todas nós, campo aberto às respetivas apresentações de casos.

As análises do Professor, tinham voz firme e segura. O seu Saber era muito! A sua visão psicanalítica, do caso em questão, ímpar e transformadora, fazia com que, sábado atrás de sábado, nos levasse (e elevasse) “ao” entendimento que nos escapava. Parecia impossível, mas era a pura das verdades, acontecia sempre.

Por isso, não houve uma única Supervisão Clínica, de grupo, que não tivéssemos saído de lá cheios de entusiasmo psicanalítico e garra.

Aprendemos tanto com ele e queríamos continuar a aprender, pelo que esperávamos todos, ansiosamente, que ele regressasse, assim que a pandemia e a sua saúde o permitissem.

Neste tempo em que ficou em casa, devido ao confinamento, o Professor queixava-se “desta chatice de não poder ir trabalhar”, da esperança em receber a vacina para voltar novamente ao gabinete e à escrita. No dia que tomou a vacina ficou imensamente contente, foi uma esperança renovada. A pandemia roubou-lhe tempo de vida, pois como todos nós sabemos, a sua Vida “alicerçava-se” na Psicanálise, na relação com os pacientes e connosco que com ele aprendíamos. O Professor não tinha idade, quem o conheceu percebe o que isto significa. Nele não era a idade que contava, era a Vida que se vivia.

A última Supervisão de sábado do Professor Coimbra, há um ano atrás, foi magistral e exaltante. Sempre cuidadoso e atento à precisão do diagnóstico e à qualidade da relação estabelecida com os pacientes.

Deu-nos uma verdadeira aula, tal como nos tempos da faculdade, ali estava ele em toda a sua pujança e força.

Tínhamos saído das “tocas”, do primeiro período de confinamento, todos ansiávamos voltar ali.

Falou com eloquência, mestria e profundidade, deu-nos o seu Saber e o eterno respeito na forma de cuidarmos os nossos pacientes. Por mero acaso, nesse dia, na escala da apresentação dos casos, calhou-me apresentar e, como sempre, senti-me privilegiada por aprender consigo. Tal como em todas as outras Supervisões, todo o grupo estava feliz por se reunir e escutá-lo, apesar da máscara e do distanciamento devido. Recordo ter olhado para os colegas do grupo, durante um momento em que o Professor apresentava a sua análise do caso, e sentir uma profunda emoção por todos nós gostarmos tanto dele. Tínhamos voltado!

Há Pessoas que são verdadeiramente especiais, o Professor António Coimbra de Matos foi um Ser Humano muito especial. Marcou-nos, marcou uma época e a História da Psicanálise. O enorme privilégio de nos mantermos próximos dele até ao fim é o nosso tesouro imaterial. Estava-se bem ao seu lado, ele guardava-nos dentro dele e nós guardamo-lo dentro de nós.

É com o amor do objeto que o sujeito se constrói - aprende a amar-se. Sendo com o amor de si próprio que vai, por sua vez, amar o outro. E assim nasce o narcisismo e o amor objectal. Na relação. António Coimbra de Matos, in O Desespero

No meu livro de poesia depois da análise: “Meu Sal”, em 2014, dediquei-lhe o último poema: “Ser Professor” que transcrevo para terminar este texto em sua Homenagem e Memória.

No prefácio que escreveu, o Professor Coimbra de Matos, exaltou, mais uma vez, o principal:

E, então, como vemos a Psicanálise? Ciência, religião? – Poesia! Antes, durante e depois. Criação, sempre.

Ser Professor

Ser Professor é transformar gente
Dar sonho e razão
À alma corpo e função.
Ser Professor não é emitir, reproduzir, transcopiar ou transladar
É escorregar de si o desejo de desejar
Ser Professor é ser poesia solta,
Metáfora sem paráfrase, riqueza diáfana
De alegrias, prazeres, sorrisos encantados
Em todo e qualquer momento exato - congruente -
respondendo sempre a toda a gente.
Ser Professor é gostar de si primeiramente
E depois de Todos
De repente
Ser Professor é ser alegria, alucinação
Ecoar, alterar,
Por inspiração,
Momentos únicos
De diversificados continentes
Que logo respondem
Vá em frente!
Ser Professor é ser um trabalhador da relação
Promover originais em bom ambiente
Dar prazer, satisfação,
Espaço, coração
Encher o peito da gente
Como pai, mãe e irmão
E querer crer para Sempre!

Nunca o esqueceremos, querido Professor Coimbra!

Ana Batarda