A ideia suicida é a ponta da navalha a remexer no golpe
até ao desespero decisivo Teixeira de Pascoaes
1. Conceitos e aspectos compreensivos
O conceito de Para-Suicídio permanece, no âmbito da nosografia geral e da prática clínica, escassamente empregue, algo difuso e ambiguamente entendido por entre os conceitos de comportamentos de risco, suicídio frustrado e tentativas de suicídio, apesar de, desde 1969, ter entrado para o glossário psiquiátrico (Kreitman, Philip, Greer & Bagley, citado por Saraiva, 2006).
Na génese do conceito Para-Suicídio encontra-se um outro: o de Tentativa de Suicídio como o principal designador de comportamentos auto-destrutivos não fatais. À medida que, ao longo das décadas (e mais notadamente a partir dos finais dos anos sessenta), os estudos de suicidologia avançaram, resultaram várias redefinições do conceito de Para-Suicídio, não sendo invulgar registar-se a sobreposição de ambas as definições, denunciando a dificuldade de distinção dos respectivos conteúdos e a ambiguidade do seu entendimento e a contínua necessidade de diferenciação nosográfica.
Sendo vários os conceitos que circulam em torno dos movimentos e comportamentos auto-destrutivos, aqueles que os especialistas em suicidologia têm vindo sobretudo a clarificar são os conceitos de Suicídio, Suicídio Frustrado ou Falhado, Tentativa de Suicídio e Para-suicídio, cujas definições dão conta do articulado constante entre a análise descritiva do fenómeno e a prática clínica. Procurando sintetizar as diferentes definições e controvérsias encontradas sobre os conceitos de Suicídio, Suicídio Frustrado, Para-Suicídio e Tentativa de Suicídio, postulamos respectivamente para cada um deles o seguinte:
- Para uma morte ser considerada como Suicídio impõe-se que o acto, deliberadamente realizado pelo sujeito, o conduziu à morte e três condições se verificaram: a premeditação (plano suicida); a intenção suicida manifesta e o recurso a método de alta letalidade.
- Nas situações em que apesar de ter existido uma intencionalidade do sujeito em morrer, o acto/método surtiu ineficaz, por qualquer interferência estranha ao sujeito, adopta-se o termo de Suicídio Frustrado.
- O conceito de Para-Suicídio refere-se a actos deliberadamente cometidos pelo próprio contra si que não conduzindo à morte faz uso de métodos letais, sem que subjacente aos mesmos exista a intencionalidade de morte.
- Finalmente, o termo Tentativa de Suicídio servirá para abranger de modo genérico, todo o gesto auto-destrutivo não fatal, numa lógica de enfatização da questão da sobrevivência e do uso clássico que o termo, ao longo de décadas, tem assumido.
2. Para-suicidio e adolescência
O adolescente que não consegue regular a dinâmica dos processos internos, jogados na interacção simétrica e na interacção complementar, navegará na turbulência de uma identidade difusa, de permanente sentir de vulnerabilidades e ansiedades, onde a colecção de sucessivos desencantos confirmam o desespero de não poder vir a ser feliz, de não vir a ser amado e de não poder amar, apercebendo-se, tal como Matos (2005) nomeia, como a percepção que o sujeito faz em relação ao desamor do outro que se desdobra em desamor por si próprio.
O suicídio inscreve-se como “(…) a resultante da não-aceitação do sofrimento na impossibilidade da revolta – A revolta da não revolta, a revolta contra si próprio. (…) a ilusão de obter o triunfo pela aceitação da derrota – a psicologia do mártir. Explicando o autor que nesta lógica (…) Morrer aparece, agora, como uma solução “razoável”: interromper uma caminhada de insucessos ou não aceitar uma vida com excessivos sofrimentos, desgastes ou desaires”. Concluindo que entre razões masoquísticas e narcísicas para a morte, passíveis de explicar um certo desejo de morrer, conta-se:
1 –“(…) Obter o amor total e duradouro do objecto (sem recriminações, acusações, inibições, traição, indiferença, não disponibilidade ou rejeição – e durante toda a vida deste). Mais que um desejo de fusão ou de união para sempre com o objecto – desejos muito regressivos que aparecem na psicose autística ou simbiótica, quer nas suas forças da infância quer nos quadros de regressão do adulto – corresponde, em personalidades mais evoluídas (quando é o núcleo depressivo que está em causa), a um desejo de ser completa e imperecivelmente benquisto e desejado.
2 – Vulnerabilidade narcísica.
3 – Intolerância à dor da perda, do abandono; com aumento da resistência à procura da dor-sofrimento, do penar para obter perdão e amor;
4 – Impossibilidade de suportar o orgulho ferido e a derrocada da omnipotência (em visão real ou imaginariamente antecipada)” (p. 136).
Descoordenados e desfasados temporalmente dos períodos em que movimentos de ligação simbiótica (de má qualidade), afastamentos e reaproximações se processam, estes adolescentes permanecem num círculo de impasse onde tanto desejam cortar amarras, como retornar ao ninho, na vã azáfama de preenchimento instantâneo do seu vazio tamanho. Os para-suicídios, como ilustração mórbida da desistência, do desespero e desfecho da queda magistral das constantes defesas maníacas em que os jovens se investem (aspirando um estado narcísico de nirvana), revelam também o apelo à mudança, à necessidade de ajuda para se livrarem daquele beco sem saída (que a insegurança da relação de objecto os tranca), do desejo (inconsciente) de abandonar a repetição distorcida do desenvolvimento relacional e da estafante dinâmica que os impede de se apropriarem das resultantes das suas experiências mais autónomas.
Whol (2000) chama a atenção que não se deve negligenciar a importância dos factores da infância devendo estes ser sempre tidos em conta quando se avalia o problema do adolescente. Toma, também, como particularmente importante, o atendimento da relação com os pais, com os pares, o sentido de auto-respeito e as ambições dos jovens para o futuro.
Enquadrando o fenómeno do para-suicídio no processo de transição evolutiva do jovem, Kaplan e Worth (1993) registam a tentativa de suicídio adolescente como uma falha no desenvolvimento e na tarefa de Separação-Individuação, na qual o indivíduo terá pouca capacidade para se diferenciar. Enquanto acontecimento surgido num período de desenvolvimento crítico, onde desejos de autonomia e independência entram, paradoxalmente, em conflito com desejos de dependência e de continuar a fazer parte da família, é muito importante, conforme sugere Jobes (1995), citando Blanck e Blanck, tomar em consideração as relações parentais e as suas influências.
A questão do ataque ao corpo (indelevelmente inscrita no gesto auto-destrutivo) é uma das dimensões significativamente discutidas na abordagem dinâmica do para-suicída nos adolescentes, embora as perspectivas de análise acabem por destacar possibilidades de interpretação distintas.
Com Braconnier e Marceli (2005) a tentativa de suicídio é tomada como o comportamento mais relevante no âmbito da significação deste período do desenvolvimento, pois ele coloca o problema (fundamental) da idade poder facilitar a passagem ao acto e a situações encenadas, conferindo-se uma impulsividade aparente a este comportamento. Neste sentido, o ataque ao corpo é visto como o questionamento que o adolescente estabelece com o seu corpo, sendo o desejo de morte remetido para a morte das imagens internas, ou seja a representação caricatural do “trabalho de luto” que o adolescente tem de realizar. Ao nível do contexto depressivo que a tentativa de suicídio habitualmente envolve, os mesmos autores consideram que este se enquadra na vivência existencial própria do adolescente. No âmbito da esfera relacional, a tentativa de suicídio exerce uma pressão sobre o outro, na expectativa de uma resposta, dos pais em primeiro lugar, devendo ser compreendida como um modo de comunicação, um gesto derradeiro para manter ou retomar uma relação com os outros.
Ladame (1995) analisa a tentativa de suicídio como um ataque destrutivo ao próprio corpo sexuado, que se apresenta como irreversivelmente masculino ou feminino. Considerando ser ao nível da representação clivada, entre um corpo percebido (a sua realidade biológica) e um corpo imaginário ou ideal (púbere) e da emergência dessa lacuna, que a tentativa de suicídio evidencia a má prova de realidade e a instalação do conflito psíquico. Através desta força particular de desligamento, “(…) fica colocada em causa (entre a pulsão e os seus representantes) a actividade de ligação, o trabalho de transformação que permite passar do somático à actividade psíquica, de diferenciar uma percepção de uma representação e de instalar a prova da realidade” Ladame (1988). É a partir desta ideia que o autor aconselha que se compreenda o papel patogénico das circunstâncias de vida que na anamnése possam ser passadas em revista.
São jovens que vêm a morte como um alívio para uma intensa angústia e desconforto que experimentam, onde os seus gestos não são o reflexo de uma simples crise de crescimento, um acto manipulativo, ou um acto impulsivo, conforme se pudesse eventual e superficialmente avaliar (Dias, 1984; Sampaio, 1991; Ladame, 1995).
Será sobre a tonalidade de um pensamento reflexivo, de atenção sobre o olhar para dentro, de preenchimento do que é lacunar e desligado, que se tenta conduzir a representação sincrética à representação simbólica, num contexto de rêverie, de relação implícita partilhada, de fineza afectiva e momento único (momentos especiais de ligação) onde se tenta propulsionar a transformação do que antes era anáclise e desamparo para um estado de autonomia e estrutura. Do momento do encontro, à expansão da consciência, ao reconhecimento da diferença do eu e do outro tenta-se a descoberta e novas experiências de compleição narcísica e identificação sexual do adolescente.
3 - Intervenção psicológica individual e familiar
O acompanhamento psicológico de um para-suicídio é normalmente visto com alguma relutância por se considerar este comportamento como um acto impulsivo encerrado nalguma vergonha (Laufer, 2000). Não sendo, portanto assumido como um sinal de perturbação grave, não é tomado a sério e, recorrentemente, os atentados contra a vida são negados tanto pelos profissionais de saúde que os atendem nas urgências hospitalares, como pelos próprios familiares. Se, por um lado, é frequente nos adolescentes surgirem pensamentos suicidas e tal não significar a existência de perturbação grave, o mesmo não se passa com as tentativas de suicídio que revelam já o ser (Anna Freud (1958); Friedman, 1972; Laufer, 1993; Wise, 2000; Campbell, 2000) existindo razões de preocupação, pois significa que da oscilação desses pensamentos e sentimentos se passou à sua fixação.
Schachter (2000) regista a importância da descoberta da influência do factor tempo para a produção desta representação, explicando que o tempo que decorre entre a tentativa de suicídio e a recusa é de sensivelmente 24 horas, pelo que sempre que um paciente não é visto nesse prazo de tempo, a situação psicológica real não pode ser correctamente avaliada porque o processo de recusa já se começou a operar, ou seja a gravidade do acto automaticamente é negada. É nesta fase que a tentativa de suicídio pode ser atribuída a uma discussão com a namorada/o/mãe/pai, um erro, um fracasso ou qualquer outro tipo de acontecimento precedente
Sob o plano da realidade psíquica, Ladame (1995) aponta ainda que os acontecimentos da realidade exterior (que precedem frequentemente o gesto suicidário) representam, sobretudo, a confirmação do insucesso do movimento do primado da genitalidade, ou seja uma redundância, mais do que propriamente uma implicação causal directa do seu surgimento.
Segundo Joffe (2005) a noção de morte para o adolescente pode significar muitas coisas, não representando necessariamente a concretização desta realidade (morrer, mesmo!). O deslindar das fantasias associadas como seja à vontade de querer renascer, desejar destruir, eliminar ou adormecer uma parte de si são aspectos essenciais para que a intervenção terapêutica siga no sentido de lhes lembrar o seu medo de morte. Embora nem todos os pensamentos sobre a morte impliquem necessariamente o seu acontecimento, sendo inclusivamente conforme Braconnier & Marcelli (2005) revelou, “(…) impossível falar de tentativa de suicídio sem se falar do sentido da morte na adolescência, pois se não todos, a maioria dos adolescentes pensa na morte num dado momento da sua vida – manifestando o desejo de se matarem para desaparecer, o que é facto, é que estes pensamentos abrangem o lugar da morte na vida e conservam a crença do sentimento de omnipotência infantil permitindo que o jovem arrisque ao ponto de depois se sentir aliviado por não ter sofrido qualquer dano” (p. 308), pois é comum considerarem que lhe vão sobreviver.
- Com a morte, o que será feito de mim? Morre-se todo? (Heidegger, em Sein und Zeit)
Para já não falar
- da falta de sentido que tal representa para o Homem, após o trabalho de milhares de milhões de anos de evolução em que nos encontramos, acrescentar-se o sucumbir inutilmente com a morte, é como se esta aparecesse como algo de “impróprio”. (Anselmo Borges)
Porque
- “para o inconsciente, o Homem é imortal e a imortalidade é, através da fala, a única forma de lidar com a ideia morte, pelo que, neste sentido, o Homem não morre”. (Amaral Dias)
O que torna
- impossível imaginarmos a nossa própria morte, mesmo quando se atenta contra si próprio, pois mantemo-nos presentes como espectadores, convencidos da nossa imortalidade.
Shapiro & Freedman (1988) registam que a compreensão da dinâmica do suicídio exige uma atenção particular em relação ao vivido familiar. Os conflitos e os fantasmas inconscientes comuns, dos membros desse grupo, constituem um importante aspecto do ambiente de suporte (holding ambiental) no interior do qual a criança se desenvolve, apontando para a existência de um veneno no ambiente. A intervenção terapêutica surge assim como uma possibilidade de desintoxicação dos ódios escondidos, na qual é essencial avaliar os componentes que o constituem.
Na perspectiva dinâmica, a abordagem clínica aos adolescentes para-suicidas pode reverter sobre duas dimensões distintas (Ladame, 1995), embora de aplicação paralela, ou seja: a psicoterapia individual e a psicoterapia familiar. As psicoterapias individuais de abordagem dinâmica adequadas aos adolescentes suicidários são, na opinião do autor, aquelas que permitem: 1) diminuir sentimentos de ser constantemente punido e desprezado; 2) reduzir a intensificação da reivindicação de um estado e de um ideal de Eu; 3) desenvolver identificações mais saudáveis e, em quarto lugar, desenvolver a mestria (controlo) da impulsividade. Esta abordagem parte da ideia de que as tentativas de suicídio correspondem a uma destruição de toda a organização psíquica e só uma psicoterapia de longa duração poderá contribuir para a modificação da organização interna da personalidade e permitir a retoma das potencialidades desenvolvidas. O mesmo autor aponta ainda a necessidade do empenho terapêutico se dever dirigir também para as fontes pulsionais do adolescente, sendo de particular cuidado na anamnése perceber-se as proporções com que uma e outra intervém, remetendo uma atenção particular para a observação da sexualidade do adolescente face à fragilidade do seu registo anal e das suas angústias de separação se alinharem em jogos de identificação projectivas patológicos.
Para lá do acto e da faixa etária, o Para-Suicídio é visto como um comportamento inserido no fracasso do processo de desenvolvimento do adolescente em crise, para o qual uma avaliação global rigorosa, deve conduzir a uma intervenção eficaz que possibilite ao jovem e ao seu sistema relacional encontrarem outras alternativas existenciais.
Ana Batarda
Nota: A presente Comunicação foi extraída da tese de Monografia de Licenciatura em Psicologia Clínica, cujo Orientador foi o Professor Doutor Eduardo Sá.